COMO POSSO ME TORNAR UM ESCRITOR?
17/09/2012 14:13:21

Tenho ouvido essa pergunta inúmeras vezes, especialmente da parte de jovens talentosos e idealistas que desejam dar a sua contribuição para a boa causa das letras e para a Causa maior do Evangelho. Antes de tentar alinhar algumas sugestões aos candidatos a escritor, devo dizer que há uma enorme escassez de autores cristãos no Brasil. Grande parte dos livros circulantes são traduções, geralmente do inglês, o que vem provar que a palavra impressa, apesar de todos os avanços na tecnologia da comunicação, ainda tem e por muito tempo terá o seu lugar. Precisamos de autores que falem as mesmas coisas, porém com sotaque nosso. Há uma vaga para você!
Primeiro: Para ser um bom escritor, é preciso, antes de mais nada, ser um bom leitor. É lendo que se aprende a formular e apresentar idéias. Se você quer ser um escritor, mas não gosta de ler, esqueça. Se quiser ser um escritor, leia, leia muito, devore todos os estilos literários, descubra o modo como os escritores formulam e transmitem suas idéias, como dão destaque aos pensamentos mais importantes e como dão originalidade ao seu modo de apresentar conceitos e narrativas.
Segundo: Leia todos os autores que puder, mas não imite nenhum deles. Quando adolescente, li a “Oração aos moços” e outros discursos de Rui Barbosa e fiquei fascinado. Comecei a escrever tentando imitar Rui. Logo, porém, percebi que eu nunca chegaria a um fio do bigode do grande escritor baiano e comecei a desenvolver meu próprio modo de escrever simples e direto, sem rebuços nem prosopopéia. Do acadêmico Machado de Assis ao inovador Guimarães Rosa, passando pelo apaixonado Euclides da Cunha, pela discreta Raquel de Queiroz e pela intrigante Clarice Lispector, prove de todos os potes, mas beba da sua própria água. Leia uma obra do irreverente e genial Nelson Rodrigues, logo em seguida leia algo do lapidador de frases Carlos Heitor Cony e observe a diferença de estilos na formulação das sentenças, sempre brilhantes em ambos os casos.
Terceiro: Para ser um bom escritor, é preciso ser um bom observador. Observe desde a gota de orvalho pingente da folha de tinhorão até o boi quieto olhando para você com seu olhar complacente. Observe os insetos e as estrelas, o sol, onde nasce, a lua, onde brilha, a criança, como segura sem segurar e os dedos do idoso, como largam sem abrir a mão. As vozes, as almas e os gestos das pessoas, observe-os em silêncio. Não olhe apenas, veja! Não apenas veja, entenda. Mais que entender, aprecie.
Quarto: O escritor é o operário das letras. É trabalhoso o escrever. Grandes obras literárias começaram de uma simples anotação num guardanapo do La Mole ou num papel de pão da padaria Confiança. Um trabalho literário em geral começa pequeno, mas depois tem que crescer. Anote suas idéias, mesmo que não lhe pareçam boas no momento em que surgem. Em outro contexto emocional, aquele conceito poderá se mostrar genial. Mas não copie ninguém. Crie seu modo pessoal de fazer anotações para o livro que deseja escrever. Pelo menos três bons dicionários devem estar ao alcance da sua mão e devem ser constantemente perlustrados enquanto você escreve. Um bom Aurélio ou Houaiss, para não correr o risco de empregar uma palavra com significado diferente do que ela possui. Um bom dicionário de sinônimos é essencial para você não repetir o mesmo vocábulo em cada página, a não ser para efeito didático. A repetição cansa o leitor. Dá a impressão de coisa pretérita. Um bom dicionário gramatical também é útil para você não cometer erros de concordância e regime de verbos, pronomes ou adjetivos. Pequenos erros comprometem grandes idéias. Como você vê, escrever dá trabalho e muito! Se tiver o ideal de ser um escritor e se puder, faça uma faculdade de letras, estude muito enquanto anota idéias. Mas não é a faculdade, senão o seu talento e empenho que vão fazer de você um escritor.
Quinto: Para ser um bom escritor, é preciso ser um bom revisor. Se você não tiver disposição para rever e reescrever o mesmo parágrafo cinco, dez, trinta vezes, só se você for um gênio e há poucos gênios no mundo das letras. Para a maioria dos escritores, escrever é um esforço artesanal. Não há muitos poetas como Tom Jobin, que escrevia a letra de um poema do começo ao fim sem parar e estava pronto, irretocável. Às vezes você vai redesenhar um texto quinze vezes para depois voltar à primeira formulação. Nem por isso desanime. Você viu quinze maneiras de dizer a mesma coisa e esse exercício enriqueceu sua mente.
Sexto: Escreva por amor aos leitores e às letras. Lute, cave, mas não pense em obter grande resultado financeiro com seus escritos. Nunca conheci um escritor evangélico brasileiro que vivesse de direitos autorais. Escrever dá muito trabalho, mas não dá lucro, a não ser para uns poucos escritores seculares que descobrem um filão de ouro e passam a explorá-lo das mais diversas formas.
Sétimo: Escolha o seu estilo. A grande maioria dos escritores evangélicos produz obras devocionais, estudos exegéticos, poesias e narrativas. Por que temos tão poucos autores de ficção? Por que tão poucos livros cristãos para crianças? Esta, sem dúvida, é a maior lacuna nas prateleiras das livrarias evangélicas. O leitor mirim de hoje pode ser o intelectual cristão de amanhã. Também ainda não apareceu um bom contista evangélico no Brasil. O campo está aberto e carente para esses estilos. Tente. Mas atenção: Um romance ou uma novela também exigem muita pesquisa e demorada reflexão. Não basta criar uma história e contá-la. É preciso que o romance tenha um lastro no viver dos leitores, que tenha originalidade, que seja lido com prazer. Não basta você achar a história boa. Os leitores também acharão?
Oitavo: Conheça e saiba manusear as figuras de linguagem. Aprenda com Jesus a fazer uso de metáforas (João 10.7), parábolas (Mt 13.24), alegorias (João 15.1ss), hipérboles (João 7.38), sinédoques ou metonímias (tomar o continente pelo conteúdo, o todo pela parte ou o singular pelo plural (Lc 22.20). Procure identificar e entender as figuras de linguagem usadas pelos bons autores, mas não abuse das figuras de retórica, para não parecer que está ocultando a falta de conteúdo atrás de fantasias.
Nono conselho: Faça um roteiro. Um bom texto tem que ter começo, meio e fim. A primeira frase de um livro pode ganhar ou perder muitos leitores. Ou todos! No gênero contos, o fim da história muitas vezes é omitido para que o leitor faça suas conjecturas. Toda novela e todo romance tem que ter algum suspense. É a curiosidade do leitor em saber o que vem depois que mantém o seu interesse, como nas novelas da televisão e nos filmes de Alfred Hitchickoc. Se o fim de uma história é fácil de se adivinhar desde o começo, o leitor fecha o livro e o coloca de lado.
Enfim, evite os pleonasmos, os cacófatos, as palavras ásperas quando o assunto é suave. Leia seu texto em voz alta para verificar se ele tem cadência, se possui ênfases nos pontos certos. As pessoas lêem, ainda que em silêncio, como se estivessem ouvindo o texto em voz alta. Evite os recursos gráficos que tentam substituir a força das palavras. Negritos, itálicos, sublinhamentos, VERSAIS, enquadramentos, hi-fe-ni-za-ção, e outros elementos estéticos podem indicar que as palavras não são suficientes para destacar idéias e precisam de reforço. Não abuse desses recursos. Evite os diminutivos (Um menininho com cinco pãezinhos e dois peixinhos em seu cestinho... fica um estilo desagradável). Evite também os aumentativos e superlativos desnecessários e as redundâncias (O cachorrão grandíssimo latiu e apavorou a dulcíssima donzela jovem).
Bem, até aqui tentamos dar alguns poucos conselhos para quem sente que tem o dom de escrever e deseja construir uma obra literária. Melhor teria sido submeter este artigo ao critério do mestre Adalberto de Souza, o que não foi possível dada a premência de tempo. Escreva o seu livro. Imprima meia dúzia de cópias e peça a amigos para que leiam e ofereçam suas avaliações. Agora vem o mais difícil: Publicar o livro. Mas este é um assunto para outro artigo, que poderia começar com o famoso conto de Orígenes Lessa “O Feijão e o Sonho”. Para muitos, é o meu caso, muito mais sonho do que feijão...

João Falcão Sobrinho